O mergulho, de facto, é uma coisa curiosa.
Tirei o curso por ser uma coisa que poderia vir a ser útil na minha "carreira como Bióloga" (ooo!! coisa pomposa), mas confesso que quando tirei o curso não me apaixonei perdidamente pela arte de mergulhar. Nos primeiros mergulhos que fiz, ainda durante o curso e alguns ainda em Cabo Verde, a preocupação com todo o material e parafernália envolvente ("está tudo bem apertado? Tenho a máscara e o regulador bem postos? A flutuabilidade está boa? Não, que estou muito para cima! Agora estou demasiado em baixo!") enchia demasiado a minha cabecinha para deixar-me gozar o mergulho devidamente. Geralmente ao fim de vinte minutos já estava a pensar com os meus botões que "pronto e tal, isto é giro, mas já está tudo visto". Isto quando o mergulho ainda ia a meio.
Entretanto, à medida que os mergulhos se foram acumulando, as preocupações com a logística diminuíram e comecei a gozar verdadeiramente os mergulhos. É uma sensação muito gira estar num meio que, na realidade, é selvagem. Muitas vezes sinto que estou a ver a vida a acontecer - sim, é muito do género "O Círculo da Vida". Ainda não comecei a ouvir a música na minha cabeça quando estou debaixo de água, mas às tantas, um dia destes acontece (para quem não percebeu a referência, está na altura de rever "O Rei Leão").
Nos últimos dias muitas espécies têm estado em activas actividades reprodutivas, o que acentua mais essa sensação. Isso e ver, volta e meia, um peixe que perdeu um bocado ou traz umas mazelas significativas, mas que sobreviveu para "contar" a história. Uma cena inesquecível aconteceu no outro dia, quando vi de repente um peixe-lagarto (
Synodus saurus) com qualquer coisa grande a sair-lhe da boca. A coisa grande era outro peixe (provavelmente um
Scorpaena maderensis), só com a cabeça de fora e ainda a respirar. E ali estavam, um e outro, quietinhos a ver quem é que vencia. Uma vez que o peixe comido tem espinhos dorsais venenosos, que deviam estar enterraditos no esófago do outro, até é capaz de se ter safado.
O mergulho também permite ter sensações que nem nunca me tinham passado pela cabeça. Por exemplo, eu sei como se sente uma bandeira desfraldada ao vento(!). Pois é, fazer uma paragem de segurança aos 5 m com uma corrente tão forte que pode arrancar-nos a máscara da cara, não é pera-doce. Estamos ali, agarradinhos ao cabo com as duas mãos e todos esticadinhos "ao vento".
Ou outra, nunca vi ninguém com sangue azul, mas com sangue verde já posso dizer que sim. Houve um pequeno acidente envolvendo uma
garoupa-pintada em fuga, um dedo e um bistúri, que resultou num dos elementos da equipa científica a quase ficar sem um naco do dito dedo. Isto aos 22 m de profundidade, mais coisa menos coisa. Depois foi ver sangue verde a jorrar enquanto subiamos pelo cabo acima. O mais estranho foi ver que o sangue continuava verde mesmo aos 5 metros de profundidade. O fenómeno da
luz e das cores debaixo de água é de facto curioso. Por exemplo, a dita garoupa-pintada, tem uma coloração com tons de vermelho, laranja, amarelo, entre outras tantas cores. No entanto, aos tais 22 m de profundidade continua a ser perceptível a cor avermelhada da garoupa. Pelos vistos os pigmentos dos peixes são "mais melhor bons". Maravilhas da Natureza.


Depois há mais experiências do tipo "círculo da vida". Num dos últimos mergulhos que fiz no Kwarcit, um dos navios afundados pelo Manta para criar recifes artificiais, lá para o fim do mergulho começou uma corrente bastante forte. Eu andava nas minhas voltinhas a ver que espécies de peixes via e nessa altura estava já perto do cabo para, assim que chegasse ao fim o tempo de mergulho, começar a subir. Nisto, apareceu um peixe-balão, que foi juntar-se às largas dezenas de peixes que já andavam por ali na zona do convés, todos alinhados com a corrente. Pensei que fosse um
Chilomycterus reticulatus, mas como era um indivíduo mais pequeno que o costume, poderia até ser de outra espécie. Então, comecei eu também a alinhar-me com a corrente tal como os outros peixes à minha volta e, devagarinho, comecei a aproximar-me do peixe-balão, para conseguir ver melhor as colorações. Não sei se foi por estar curioso, se por causa da corrente, o que é certo é que deixou que me aproximasse bastante - fiquei a um palmo dele - e ficámos ali lado a lado durante um bocado. Nesse momento senti que também eu fazia parte daquele meio, também eu era um peixe qualquer esquisito. Foi literalmente uma sensação de outro mundo.